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Leo Busollo

Psicoterapeuta

Depressão: Prevenção de Recaídas

  • Foto do escritor: Leo Busollo
    Leo Busollo
  • há 11 horas
  • 4 min de leitura

A depressão é um dos transtornos mentais com maior impacto global em anos vividos com incapacidade (GBD 2019 MENTAL DISORDERS COLLABORATORS, 2022). Além da alta prevalência, um dos aspectos mais desafiadores do transtorno é sua tendência à recorrência.

Estudos longitudinais indicam que cerca de 50% das pessoas que se recuperam de um primeiro episódio depressivo podem apresentar recaída, e esse risco aumenta progressivamente conforme o número de episódios prévios (BURCUSA; IACONO, 2007; SOLOMON et al., 2000). Em seguimentos de longo prazo, estima-se que até 85% dos indivíduos possam apresentar novo episódio ao longo da vida (MUELLER et al., 1999).

Ou seja, tratar a fase aguda é essencial, mas prevenir recaídas é uma etapa igualmente fundamental do cuidado clínico.


O que aumenta o risco de recaída?

Diversos fatores estão associados à recorrência:

  • Sintomas residuais após a remissão

  • Histórico de múltiplos episódios

  • Baixo suporte social

  • Eventos estressantes significativos

  • Comorbidades psiquiátricas

  • Traços de personalidade vulneráveis

(ZHOU et al., 2023)


Além disso, déficits cognitivos como alterações de memória e concentração podem persistir após a melhora do humor, especialmente em quadros recorrentes (SEMKOVSKA et al., 2019).


O que a pesquisa mais recente comparou?

Uma revisão sistemática com meta-análise em rede publicada em 2023 analisou 25 ensaios clínicos randomizados envolvendo 2.871 pacientes para comparar intervenções psicológicas na prevenção de recaídas em diferentes períodos de acompanhamento (3 a 24 meses) (ZHOU et al., 2023).


Foram avaliadas principalmente:

  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

  • Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT)

  • Ativação Comportamental

  • Psicoterapia Interpessoal

  • Aconselhamento de suporte

  • Antidepressivos


Principais achados científicos


1. Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT)

A MBCT demonstrou efeito contínuo e consistente na prevenção de recaídas nos primeiros nove meses de acompanhamento, sendo superior ao placebo nesse período (ZHOU et al., 2023).


Essa abordagem integra técnicas cognitivas com práticas de atenção plena, ajudando o paciente a reduzir a reatividade a pensamentos automáticos negativos.


2. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

A TCC apresentou o efeito mais prolongado ao longo do acompanhamento, embora não contínuo. Mostrou superioridade em relação ao tratamento usual em diversos momentos e também vantagem em relação ao placebo em seguimentos de 21 e 24 meses (ZHOU et al., 2023).

A literatura anterior já indicava a eficácia da TCC na redução de recaídas (VITTENGL et al., 2007).


3. Ativação Comportamental

A Ativação Comportamental apresentou efeitos mais tardios, com benefício mais evidente após 15 meses de acompanhamento (ZHOU et al., 2023). A intervenção atua principalmente na retomada gradual de atividades reforçadoras e redução da evitação comportamental.


4. Psicoterapia Interpessoal

A Psicoterapia Interpessoal mostrou benefício mais evidente no acompanhamento de 24 meses (ZHOU et al., 2023). Seu foco é a reorganização das relações interpessoais e papéis sociais, fatores frequentemente envolvidos na manutenção da depressão.


Psicoterapia ou medicação?

A evidência científica indica que tanto a farmacoterapia quanto a psicoterapia são eficazes na prevenção de recaídas (GUIDI; FAVA, 2021; BREEDVELT et al., 2021).

A combinação sequencial ou integrada de medicação com psicoterapia pode reduzir ainda mais o risco de recorrência quando comparada ao uso isolado de antidepressivos (GUIDI; TOMBA; FAVA, 2016).

Portanto, a decisão clínica deve ser individualizada.


Implicações clínicas

A prevenção da recaída envolve:

  • Monitoramento de sintomas residuais

  • Treinamento de habilidades cognitivas

  • Regulação emocional

  • Identificação precoce de gatilhos

  • Intervenção em padrões interpessoais

  • Estratégias de enfrentamento estruturadas


Intervenções psicológicas estruturadas não apenas tratam o episódio agudo, mas atuam em fatores de vulnerabilidade cognitiva e emocional (ZHOU et al., 2023).


Considerações finais


A evidência científica atual demonstra que:

  • A MBCT apresenta efeito contínuo inicial.

  • A TCC apresenta efeito mais prolongado.

  • Ativação Comportamental e Psicoterapia Interpessoal também reduzem risco em determinados períodos.

  • A combinação com farmacoterapia pode ser estratégica em alguns casos.


A depressão pode ser recorrente. Mas o risco pode ser significativamente reduzido com intervenção adequada, acompanhamento estruturado e planejamento preventivo.


REFERÊNCIAS

BREEDVELT, J. J. F. et al. Psychological interventions as an alternative and add-on to antidepressant medication to prevent depressive relapse: systematic review and meta-analysis. British Journal of Psychiatry, v. 219, p. 538-545, 2021.


BURCUSA, S. L.; IACONO, W. G. Risk for recurrence in depression. Clinical Psychology Review, v. 27, p. 959-985, 2007.


GBD 2019 MENTAL DISORDERS COLLABORATORS. Global, regional, and national burden of 12 mental disorders in 204 countries and territories, 1990-2019. The Lancet Psychiatry, v. 9, p. 137-150, 2022.


GUIDI, J.; FAVA, G. A. Sequential combination of pharmacotherapy and psychotherapy in major depressive disorder. JAMA Psychiatry, v. 78, p. 261-269, 2021.


GUIDI, J.; TOMBA, E.; FAVA, G. A. The sequential integration of pharmacotherapy and psychotherapy in major depressive disorder. American Journal of Psychiatry, v. 173, p. 128-137, 2016.


MUELLER, T. I. et al. Recurrence after recovery from major depressive disorder during 15 years of observational follow-up. American Journal of Psychiatry, v. 156, p. 1000-1006, 1999.


SEMKOVSKA, M. et al. Cognitive function following a major depressive episode: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Psychiatry, v. 6, p. 851-861, 2019.


SOLOMON, D. A. et al. Multiple recurrences of major depressive disorder. American Journal of Psychiatry, v. 157, p. 229-233, 2000.


VITTENGL, J. R. et al. Reducing relapse and recurrence in unipolar depression: a comparative meta-analysis of cognitive-behavioral therapy’s effects. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 75, p. 475-488, 2007.


ZHOU, Y. et al. Psychological interventions for the prevention of depression relapse: systematic review and network meta-analysis. Translational Psychiatry, v. 13, p. 300, 2023. DOI: https://doi.org/10.1038/s41398-023-02604-1.

 
 
 

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