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Leo Busollo

Terapeuta Infantojuvenil

“Eu tenho medo do futuro dele.”

  • Foto do escritor: Leo Busollo
    Leo Busollo
  • 1 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Quando o medo ocupa o lugar da esperança

Essa é uma das frases que mais escuto no consultório, dita com um nó na garganta e os olhos marejados. “Eu tenho medo do futuro dele.” Por trás dessas palavras há um amor imenso, mas também um peso silencioso. Esse medo não é apenas sobre o amanhã ele é, na verdade, um reflexo da insegurança e da impotência que muitos pais sentem ao ver o filho enfrentando desafios emocionais, sociais ou comportamentais e não saberem se ele vai conseguir “se ajeitar na vida”.


Por que esse medo é tão comum

Os pais de hoje criam filhos em um mundo diferente daquele em que cresceram. As exigências são maiores, as comparações são constantes e os desafios emocionais surgem cada vez mais cedo. Quando o filho apresenta dificuldades, como ansiedade, retraimento, impulsividade ou desmotivação, é natural que surja a preocupação com o futuro: “Será que ele vai conseguir estudar? Ter amigos? Trabalhar? Ser feliz?”

Pesquisas mostram que o medo dos pais sobre o futuro dos filhos está profundamente ligado à sua própria ansiedade parental, e que essa ansiedade pode influenciar diretamente o bem-estar emocional da criança (Haghshenas et al., 2024). Pais excessivamente preocupados, mesmo com boas intenções, podem acabar transmitindo mensagens de insegurança que aumentam a ansiedade do filho e reduzem sua autoconfiança.


Quando o medo começa a controlar a relação

O medo, quando toma conta, pode transformar a forma como o pai ou a mãe se relaciona com a criança. Alguns se tornam superprotetores, outros se distanciam por exaustão. Em ambos os casos, o vínculo acaba ficando fragilizado. Estudos mostram que estilos parentais ansiosos e permissivos estão associados a níveis mais altos de ansiedade nas crianças e adolescentes, enquanto relações mais estruturadas e empáticas tendem a gerar segurança emocional e resiliência (Haghshenas et al., 2024).

Além disso, a ansiedade dos pais costuma estar relacionada ao medo de “fracassar como educadores”. Pesquisas mostram que a preocupação excessiva dos pais em “fazer tudo certo” aumenta a probabilidade de culpa, estresse e sensação de inadequação, o que repercute negativamente na dinâmica familiar (Yasir, 2022).


O que a ciência diz sobre esperança e resiliência

Há, porém, um outro lado nessa história: o da resiliência. Diversos estudos mostram que o desenvolvimento emocional saudável das crianças depende menos da ausência de dificuldades e mais da presença de fatores protetores como vínculos afetivos sólidos, apoio emocional dos pais e oportunidades de aprender com os próprios erros.

Uma pesquisa longitudinal realizada com adolescentes mostrou que a resiliência familiar e a capacidade dos pais de demonstrar emoções positivas estão entre os fatores mais importantes para que os filhos desenvolvam saúde mental equilibrada na vida adulta (Yun et al., 2024).Ou seja, o futuro do seu filho não depende de ele “não errar”, mas de ele ter alguém que o ensine a se levantar quando errar.

Além disso, estudos indicam que adolescentes que aprendem estratégias de enfrentamento e praticam pensamentos positivos sobre o futuro apresentam menores níveis de depressão e ansiedade, e maior capacidade de planejar a própria vida (Tang et al., 2023).


O impacto do modelo emocional dos pais

Outro aspecto que a literatura científica reforça é o poder do exemplo emocional dos pais. O modo como o adulto lida com suas próprias emoções serve de modelo para a criança. Quando os pais demonstram resiliência, capacidade de se adaptar e esperança realista, os filhos tendem a internalizar essas competências.

Um estudo sobre transmissão intergeracional da saúde mental mostrou que o equilíbrio emocional dos pais tem efeito direto sobre o bem-estar psicológico dos filhos, sendo mediado pela capacidade da família de manter um ambiente de apoio e coesão (Yun et al., 2024).Em outras palavras, cuidar de si mesmo emocionalmente é uma das melhores formas de cuidar do futuro do seu filho.


O que realmente ajuda

  1. Acolha o medo, mas não viva nele. Reconhecer a preocupação é importante, mas permitir que ela dite as decisões diárias pode paralisar tanto você quanto seu filho.

  2. Invista em conversas reais. Falar sobre o futuro de forma positiva e aberta ajuda a criança a desenvolver um senso de controle e esperança.

  3. Busque equilíbrio entre apoio e autonomia. A superproteção impede o aprendizado. O desafio é estar por perto, mas permitir que ele experimente e descubra sozinho.

  4. Procure ajuda profissional quando necessário. Terapias que envolvem pais e filhos, como a Terapia Cognitivo-Comportamental com orientação parental, têm mostrado excelentes resultados na redução da ansiedade e aumento da autoconfiança em adolescentes (Yin et al., 2020).


Conclusão: o futuro se constrói no presente

Ter medo do futuro do seu filho é humano. Esse medo nasce do amor e do desejo de protegê-lo. Mas é importante lembrar que o futuro dele não será definido pelas dificuldades de agora, e sim pela forma como vocês, juntos, aprendem a enfrentá-las.

O que realmente prepara uma criança para o futuro não é o controle, mas a conexão.Quando o amor é acompanhado de presença, escuta e esperança, o medo perde espaço e o futuro começa a ser construído um dia de cada vez.


Referências

  • Haghshenas, R., Fereidooni-Moghadam, M., & Ghazavi, Z. (2024). The relationship between perceived parenting styles and anxiety in adolescents. Scientific Reports.

  • Yin, B. et al. (2020). Efficacy and acceptability of parent-only group cognitive behavioral intervention for treatment of anxiety disorder in children and adolescents. BMC Psychiatry.

  • Yasir, W. (2022). The Mediating Role of Parental Behavior Between Anxiety and Body-Focused Repetitive Behavior Disorder Among Adolescents. Pakistan Languages and Humanities Review.

  • Tang, K. et al. (2023). Links between mental health problems and future thinking from the perspective of adolescents with experience of depression and anxiety. Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health.

  • Yun, H., Heo, J., & Wilson, C. (2024). Linking mechanisms in the intergenerational transmission of mental health: The role of sex in parent–adolescent dynamics. Children.


 
 
 

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