“Meu filho não consegue aprender.”
- Leo Busollo
- 2 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Quando aprender se torna um sofrimento
Poucas frases carregam tanta angústia quanto essa. “Meu filho não consegue aprender.” É dita geralmente após muitas tentativas, reforços, castigos, trocas de escola e noites de choro sobre o caderno. Para muitos pais, o problema parece ser falta de vontade. Mas o que vejo na clínica é bem diferente: a grande maioria dessas crianças quer aprender, mas simplesmente não consegue transformar o esforço em resultado.
O que realmente está por trás das dificuldades de aprendizagem
Aprender é um processo complexo que envolve atenção, memória, linguagem, coordenação motora e regulação emocional. Quando uma dessas áreas não está funcionando bem, o aprendizado como um todo fica comprometido.
Pesquisas recentes mostram que as dificuldades de aprendizagem podem ter origens neurológicas, psicológicas e ambientais, e aparecem em crianças de todas as inteligências — inclusive nas muito inteligentes (Wardhani, 2023). Essas dificuldades não significam falta de capacidade, mas uma diferença no modo como o cérebro processa as informações.
Entre os transtornos mais comuns estão a dislexia (dificuldade na leitura), a discalculia (dificuldade em compreender números), a disgrafia (dificuldade na escrita) e o TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), que interfere na concentração e na memória de trabalho.
Estudos mostram que quanto mais cedo essas dificuldades são identificadas, maiores as chances de recuperação. Intervenções precoces reduzem o impacto emocional e previnem o fracasso escolar (Philips et al., 2020).
O impacto emocional de “não conseguir”
Não é raro ver crianças com dificuldades de aprendizagem desenvolverem ansiedade, baixa autoestima e até sintomas depressivos. Um estudo sobre o tema mostrou que a frustração constante associada ao “não aprender” pode afetar a saúde mental, levando ao isolamento social e à perda de motivação (Marioleni, 2015).
Na prática clínica, percebo que essas crianças criam uma narrativa de incapacidade. Elas dizem coisas como “sou burro”, “não adianta tentar” ou “todo mundo aprende menos eu”. E quando o ambiente escolar ou familiar reforça, mesmo sem intenção, essa percepção de fracasso, o bloqueio se intensifica.
A importância da avaliação correta
Um dos erros mais comuns é buscar soluções antes de entender o problema. Muitos pais passam por vários profissionais — professores particulares, psicopedagogos, neurologistas — sem uma avaliação integrada. O diagnóstico correto deve envolver uma equipe multiprofissional, avaliando linguagem, funções cognitivas, aspectos emocionais e contexto familiar.
Pesquisas mostram que a integração entre intervenções educacionais e psicológicas é a chave para o sucesso. Programas que combinam ensino estruturado com suporte emocional aumentam o rendimento escolar e a confiança da criança (Khan & Shrivastava, 2024).
Como a terapia pode ajudar
A terapia infantil entra como um espaço seguro para que a criança possa reconstruir sua relação com o aprender. Mais do que ensinar técnicas, o objetivo é restaurar a confiança e reduzir a ansiedade de desempenho.
Estudos indicam que intervenções psicológicas direcionadas melhoram não apenas o desempenho escolar, mas também o comportamento e o engajamento em sala de aula (Jiang, 2024). A criança passa a se sentir mais capaz, e o cérebro responde melhor quando o medo e a tensão diminuem.
Outra linha de pesquisa promissora envolve estratégias autorregulatórias, que ensinam a criança a planejar, organizar e revisar o próprio aprendizado. Mesmo intervenções curtas, focadas nesse tipo de treino, mostraram melhorias significativas em leitura e raciocínio (Lamb et al., 1998).
O papel dos pais e da escola
Pais e professores são fundamentais nesse processo. Quando entendem que o problema não é falta de esforço, mas uma diferença no modo de aprender, o olhar muda completamente. A crítica dá lugar ao apoio.
A escola precisa ser parceira, oferecendo adaptações didáticas, tempo extra para provas e formas alternativas de avaliação. E os pais, por sua vez, precisam evitar comparações e focar no progresso real, não apenas nas notas.
Como terapeuta, costumo dizer aos pais: o seu filho não precisa ser o melhor da turma, ele precisa voltar a acreditar que pode aprender.
Conclusão: aprender é mais do que decorar
“Meu filho não consegue aprender” muitas vezes significa “meu filho não está sendo compreendido no seu jeito de aprender”.A boa notícia é que o cérebro é plástico e capaz de se reorganizar. Com diagnóstico correto, apoio emocional e estratégias personalizadas, a maioria das crianças com dificuldades de aprendizagem consegue superar seus desafios e desenvolver um aprendizado significativo.
Aprender não é só adquirir conhecimento, é também recuperar a confiança. E essa, sim, é a lição mais importante.
Referências
Jiang, Q. (2024). Influence of Psychological Intervention on Children with Learning Disability. Transactions on Social Science, Education and Humanities Research.
Wardhani, R. D. K. (2023). Education and Learning Services for Children with Learning Difficulties. Scientia.
Khan, S., & Shrivastava, R. (2024). Understanding Learning Disabilities: Integrating Educational Strategies and Psychological Interventions. Educational Administration: Theory and Practice.
Philips, R. R., Sugumar, S., & Abraham, M. M. (2020). Early Intervention for Children with Learning Difficulties: An Update. Indian Journal of Public Health Research & Development.
Marioleni, A. (2015). Learning Difficulties: The Effect on Mental Health of Children. American Journal of Nursing Science.
Lamb, S. J., Bibby, P., Wood, D., & Leyden, G. (1998). An intervention programme for children with moderate learning difficulties. British Journal of Educational Psychology.



Comentários