“Já passamos por vários profissionais e ninguém conseguiu ajudar.”
- Leo Busollo
- 1 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Quando o cansaço toma o lugar da esperança
Quando um pai ou mãe me diz essa frase, percebo mais do que frustração: vejo o peso de uma jornada longa, cheia de tentativas, expectativas e decepções. Muitas famílias chegam ao consultório com um misto de descrença e medo de se iludir novamente. Sentem que já “fizeram de tudo” e que o filho parece “imune” à ajuda. Mas, quase sempre, o problema não está em “não haver solução”, e sim em não ter encontrado o tipo de ajuda certa para aquele momento, aquela família e aquela criança.
Por que tantos tratamentos falham?
Pesquisas apontam que muitos tratamentos psicológicos para crianças e adolescentes falham não por falta de competência dos profissionais, mas por inadequação entre o tipo de abordagem e as necessidades emocionais do paciente e da família (Sammer-Schreckenthaler et al., 2025).
Cada criança é um sistema complexo: ela carrega sua história, seu temperamento, seus vínculos e a forma como se relaciona com o mundo. Se a terapia ignora esse contexto e trata apenas o “sintoma” (como agressividade, desatenção, isolamento ou tristeza), o resultado tende a ser temporário. É como tentar trocar uma lâmpada sem consertar a fiação.
Além disso, a ausência de envolvimento familiar é um dos principais fatores que explicam por que muitos tratamentos não geram mudanças significativas (Miscioscia et al., 2018).
A importância de envolver a família
A ciência tem mostrado que o sucesso terapêutico não depende apenas do que acontece entre o terapeuta e o jovem, mas também de como a família participa do processo. Um estudo demonstrou que terapias psicodinâmicas com sessões de coorientação parental resultaram em melhoras significativas em sintomas emocionais e comportamentais, além de aumento da capacidade dos pais de validar as emoções dos filhos (Gatta et al., 2019).
Outro estudo indicou que as resistências externas ao tratamento, como conflitos familiares, falta de adesão ou desconfiança no processo terapêutico, costumam ser mais desafiadoras do que a própria resistência interna do adolescente (Shapiro, 1978). Por isso, criar uma aliança com os pais é tão essencial quanto o vínculo com o jovem.
Na prática, o que percebo é que, quando os pais passam a entender melhor o que está acontecendo e aprendem a se comunicar de forma diferente, o tratamento ganha força e o adolescente se sente, enfim, compreendido e não apenas “tratado”.
O erro comum de trocar de profissional sem entender o processo
É compreensível que, diante da frustração, os pais busquem outro profissional. Mas trocar de terapeuta constantemente pode interromper a construção da confiança e impedir que o processo amadureça.
Muitas famílias acreditam que “não deu certo” porque “o profissional não era bom o suficiente”. No entanto, a literatura mostra que os fatores comuns, como empatia, vínculo terapêutico e participação familiar, são os que mais influenciam o resultado, mais do que a técnica em si (Sammer-Schreckenthaler et al., 2025).
Por isso, é essencial que a família compreenda o papel ativo que tem no tratamento. A terapia não é algo que se “recebe”, é algo que se constrói junto.
Quando o problema parece não ter solução
Casos em que o jovem não responde a diversos tipos de tratamento são chamados na literatura de casos resistentes. A boa notícia é que pesquisas mostram que, mesmo nesses quadros, aproximadamente metade dos adolescentes com depressão resistente apresenta melhora quando há combinação de psicoterapia e outras intervenções estruturadas (Zhou et al., 2014).
Isso reforça um ponto fundamental: persistir e ajustar o plano terapêutico é muito mais eficaz do que desistir e recomeçar do zero. Cada tentativa anterior traz aprendizados valiosos sobre o que funcionou, o que não funcionou e o que ainda precisa ser explorado.
Como eu trabalho com famílias que já tentaram de tudo
Quando uma família chega dizendo “ninguém conseguiu ajudar”, meu primeiro passo não é propor uma nova técnica, mas ouvir profundamente a história de tentativas.Investigo o que foi feito, o que foi sentido, o que ficou faltando.Costumo dizer que meu trabalho começa no ponto em que outros pararam: na reconstrução da esperança e da confiança.
A partir daí, costumo adotar uma abordagem integrada e relacional, que combina psicoterapia individual, orientação parental e, quando necessário, sessões familiares. Essa integração se baseia em evidências de que o tratamento conjunto tende a produzir resultados mais duradouros e saudáveis (Jiménez et al., 2019).
Cada caso é tratado como único, sem receitas prontas, mas com método e sensibilidade.
Conclusão: ainda há o que fazer
Se você sente que já tentou de tudo, talvez o que falte não seja mais esforço, mas um olhar diferente.A terapia certa não é aquela que promete resultados rápidos, mas aquela que constrói um caminho de verdade, onde o jovem se sente seguro, os pais se sentem parte e o processo finalmente começa a fazer sentido.
E sim, mesmo quando tudo parece falhar, ainda há muito o que pode ser feito. Porque quando há vínculo, escuta e paciência, há sempre esperança.
Referências
Sammer-Schreckenthaler, S. et al. (2025). Specific and common therapeutic factors in psychodynamic psychotherapy for children and adolescents. Frontiers in Psychology.
Miscioscia, M. et al. (2018). An integrated approach to child psychotherapy with co-parental support. Research in Psychotherapy.
Gatta, M. et al. (2019). Effectiveness of Brief Psychodynamic Therapy With Children and Adolescents. Frontiers in Pediatrics.
Shapiro, R. (1978). The adolescent, the therapist and the family: the management of external resistances to psychoanalytic therapy of adolescents. Journal of Adolescence.
Zhou, X. et al. (2014). Systematic review of management for treatment-resistant depression in adolescents. BMC Psychiatry.
Jiménez, L. et al. (2019). Effectiveness of Structural–Strategic Family Therapy in the Treatment of Adolescents with Mental Health Problems. International Journal of Environmental Research and Public Health.



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