“Ela tem crises que eu não consigo controlar.”
- Leo Busollo
- 1 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Quando o desespero toma conta da casa
Ouvir de um pai ou mãe essa frase é algo que carrega um peso enorme. “Ela tem crises que eu não consigo controlar” costuma vir acompanhada de lágrimas, exaustão e culpa. A sensação de perder o controle diante do próprio filho é uma das experiências mais dolorosas que uma família pode viver. Mas é importante entender que as chamadas “crises emocionais” não são apenas comportamentos difíceis. Elas são, na verdade, sinais de um cérebro e um coração em sofrimento, tentando se comunicar de um jeito desorganizado.
O que realmente acontece durante uma crise
As crises intensas de choro, gritos, agressividade ou desespero são manifestações do que a psicologia chama de desregulação emocional. Trata-se da dificuldade de lidar com emoções fortes de forma equilibrada. Esse fenômeno é comum em crianças e adolescentes e pode estar presente em condições como TDAH, transtornos de humor, ansiedade, autismo e estresse pós-traumático.
Pesquisas mostram que entre 4% e 10% das crianças apresentam crises emocionais severas que prejudicam o convívio familiar e escolar (Carlson et al., 2022). Essas crises, chamadas de emotional outbursts, costumam surgir quando a criança sente frustração, medo ou sobrecarga e não possui recursos internos para lidar com isso. O cérebro entra em modo de sobrevivência e a reação é explosiva.
Pesquisas em neurociência mostram que essas respostas estão ligadas a alterações na conectividade do córtex cingulado anterior, uma região cerebral responsável pelo controle das emoções e impulsos (Roy et al., 2017). Isso explica por que, no momento da crise, não adianta conversar ou pedir calma: o cérebro da criança simplesmente não está acessível para o raciocínio.
O papel dos pais durante uma crise
Um dos erros mais comuns que vejo na prática clínica é tentar controlar a crise pela força ou pela razão. Isso só aumenta o estresse do sistema nervoso da criança. Estudos mostram que reações parentais agressivas, ameaçadoras ou punitivas tendem a aumentar a frequência e a intensidade das crises e ainda favorecem o desenvolvimento de comportamentos agressivos na adolescência (Horban et al., 2021).
Em vez disso, o foco deve ser em contenção emocional e regulação conjunta, ou seja, o adulto ajuda a criança a se acalmar antes de qualquer tentativa de correção. Isso envolve tom de voz calmo, linguagem simples, segurança física e acolhimento. A ciência tem comprovado que quando o adulto se mantém emocionalmente estável durante uma crise, o cérebro da criança tende a se reorganizar mais rápido (Sorter et al., 2022).
O que está por trás das crises
As crises não são o problema em si, mas o sintoma de algo mais profundo. Podem sinalizar:
Dificuldades neurológicas em regular emoções e impulsos.
Traumas não elaborados, mesmo que aparentemente pequenos.
Ambientes com excesso de estímulos, mudanças constantes ou falta de previsibilidade.
Pais sobrecarregados emocionalmente, o que afeta o tom emocional do lar.
Por isso, o tratamento precisa olhar para todos esses aspectos, não apenas para a criança, mas também para o contexto em que ela vive.
Como a terapia ajuda
A boa notícia é que existem intervenções eficazes para lidar com crises emocionais. Um dos tratamentos mais promissores é a Terapia Comportamental Dialética (DBT), originalmente desenvolvida para adultos, mas hoje adaptada para crianças e adolescentes. Estudos mostram que a DBT reduz significativamente a frequência e intensidade de crises, melhora a comunicação familiar e fortalece habilidades de autorregulação (Mossini, 2024).
Outra abordagem eficaz é a Terapia Interpessoal para Desregulação de Humor e Comportamento (IPT-MBD), que foca nas relações e na melhora da comunicação entre pais e filhos, trazendo ganhos emocionais e comportamentais significativos (Miller et al., 2016).
Além disso, novas práticas vêm sendo estudadas, como o uso de biofeedback, em que sensores mostram em tempo real sinais fisiológicos de estresse, ajudando a criança a aprender a se autorregular de maneira mais consciente (Molina-Cantero et al., 2025).
O papel da família no processo
Trabalhar com pais é essencial. Quando eles aprendem a lidar melhor com as próprias emoções e a reagir de forma mais empática, a criança também se regula melhor. Estudos mostram que grupos de habilidades parentais baseados na DBT reduzem o estresse dos cuidadores, melhoram a comunicação familiar e diminuem as crises dos filhos (Smith et al., 2023).
Na minha experiência clínica, as mudanças mais profundas acontecem quando a família inteira participa do processo. Não se trata de ensinar a criança a obedecer, mas de construir, juntos, novos caminhos de relação, segurança e compreensão emocional.
Conclusão: as crises não definem quem seu filho é
Se sua filha tem crises que você sente que não consegue controlar, saiba que isso não significa fracasso. Significa apenas que ela precisa de ajuda para aprender algo que ainda não conseguiu sozinha: como lidar com emoções intensas.
E isso é possível. Com um olhar acolhedor, orientação adequada e paciência, cada crise pode deixar de ser um campo de batalha e se tornar um momento de reconexão.
Porque o verdadeiro controle não vem da força, mas da presença emocional.
Referências
Carlson, G. et al. (2022). Impairing Emotional Outbursts: What They Are and What We Should Do About Them. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry.
Sorter, M. et al. (2022). Management of Emotion Dysregulation and Outbursts in Children and Adolescents. Current Psychiatry Reports.
Horban, N. et al. (2021). The features of interaction between mothers and their children aged 15-18 during psycho-emotional outbursts. Reports of Vinnytsia National Medical University.
Mossini, M. (2024). Efficacy of Dialectical Behavioral Therapy Skills in Addressing Emotional Dysregulation Among Adolescents. International Journal on Social and Education Sciences.
Miller, L. et al. (2016). Interpersonal Psychotherapy for Adolescents With Mood and Behavior Dysregulation. Evidence-Based Practice in Child and Adolescent Mental Health.
Smith, L. et al. (2023). Parent and Carer Skills Groups in Dialectical Behaviour Therapy for High-Risk Adolescents. International Journal of Environmental Research and Public Health.
Molina-Cantero, C. et al. (2025). Evaluating the effectiveness of integrating biofeedback in the treatment of aggressive outbursts (BRET-IA2). PLOS One.



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