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Leo Busollo

Terapeuta Infantojuvenil

“Ele não tem amigos, sempre fica isolado.”

  • Foto do escritor: Leo Busollo
    Leo Busollo
  • 1 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

O silêncio que preocupa

Quando um pai me diz essa frase, quase sempre ela vem carregada de um misto de tristeza e confusão:“Ele é tão bom, tão educado... mas simplesmente não tem amigos.”

O isolamento social infantil ou adolescente não é apenas uma fase, é um sinal que merece atenção. Às vezes, a solidão é uma defesa; outras, é um sintoma. E em muitos casos, ela revela um sofrimento emocional profundo que a criança ainda não consegue expressar em palavras.


Solidão não é o mesmo que estar sozinho

Toda criança precisa de momentos de introspecção, de brincar sozinha, de criar, de imaginar. Isso é saudável. Mas quando o isolamento é constante, quando o filho evita os colegas, passa o recreio sozinho ou começa a se afastar até da família, é importante compreender que a solidão emocional é diferente da solidão física.

Pesquisas mostram que a solidão persistente está fortemente associada a sintomas de depressão e ansiedade em crianças e adolescentes (Hards et al., 2021).Essas emoções não surgem “do nada”: elas frequentemente têm origem em dificuldades de socialização, experiências de rejeição, bullying, mudanças familiares ou escolares, ou até em transtornos de desenvolvimento que afetam a comunicação.


O impacto real do isolamento no desenvolvimento

A ciência tem sido clara: a solidão crônica afeta não apenas a saúde emocional, mas também o desempenho acadêmico e o desenvolvimento social. Um estudo global com mais de 500 mil adolescentes de 75 países mostrou que jovens que se sentem isolados tendem a ter menor rendimento escolar, menos engajamento com professores e mais sintomas depressivos (Jefferson et al., 2023).

Em outras palavras, quando o adolescente se desconecta dos outros, ele também começa a se desconectar de si mesmo.


Por que ele se isola?

Existem várias razões pelas quais uma criança pode se afastar socialmente, e descobrir qual delas está presente é parte essencial do meu trabalho terapêutico. Entre as causas mais comuns, estão:

  1. Medo de rejeição ou humilhação, comum em crianças sensíveis que já foram excluídas ou ridicularizadas.

  2. Baixa autoestima e autocrítica, em que o isolamento funciona como uma forma de “evitar o fracasso social”.

  3. Transtornos de ansiedade social ou depressão, em que o isolamento não é escolha, é paralisia.

  4. Dificuldades de comunicação, como no espectro autista, em que a criança quer se conectar, mas não sabe como.

Estudos indicam que crianças com ansiedade, depressão ou condições do espectro autista apresentam taxas mais altas de solidão e retraimento social, o que pode agravar os sintomas caso não haja intervenção precoce (Hards et al., 2021).


O que a solidão faz com o corpo e com a mente

A solidão prolongada ativa os mesmos circuitos cerebrais de dor física, e isso explica por que o isolamento dói tanto.Ela também está associada a maior risco de uso problemático de telas, depressão e pensamentos autodestrutivos, especialmente na adolescência (Cena et al., 2023).

Por isso, o isolamento nunca deve ser tratado como “drama” ou “timidez passageira”. Ele é um sinal, e todo sinal precisa ser escutado.


O que realmente ajuda: conexão e pertencimento

O oposto de isolamento não é popularidade, é pertencimento.Estudos mostram que intervenções que estimulam habilidades sociais, empatia e cooperação em grupo reduzem significativamente os níveis de solidão e melhoram a saúde mental dos adolescentes (Burke, 2024).

Em um contexto terapêutico, costumo trabalhar em três frentes:

  1. Com o jovem, ajudando-o a compreender seus sentimentos, desenvolver autoconfiança e treinar habilidades de socialização.

  2. Com os pais, ensinando a criar espaços seguros de diálogo e aceitação.

  3. Com a escola, promovendo mudanças de ambiente que incentivem vínculos e respeito às diferenças.

O que a ciência tem chamado de clima escolar inclusivo é um dos fatores mais protetivos contra o isolamento e seus efeitos emocionais (Jefferson et al., 2023).


O papel da terapia: ensinar a se reconectar

Na minha prática clínica, percebo que a terapia não é apenas sobre falar dos problemas, é sobre ensinar a se relacionar novamente.A criança isolada muitas vezes carrega medo: medo de ser julgada, rejeitada ou simplesmente de não saber como agir.A terapia cria um espaço onde ela pode experimentar novas formas de se conectar, primeiro comigo, depois com o mundo.

Nos casos mais complexos, programas de grupo e experiências colaborativas, como oficinas ou até jogos em realidade virtual supervisionada, têm mostrado resultados promissores no aumento da socialização e na redução de sintomas depressivos (Lai et al., 2023).


Conclusão: o isolamento é um pedido de ajuda disfarçado

Se o seu filho não tem amigos e sempre fica isolado, o que ele está dizendo, ainda que em silêncio, é: “Eu não sei como me encaixar.”E esse é um pedido de ajuda.

Buscar apoio profissional é o primeiro passo para devolver a ele o direito de se sentir parte, de um grupo, de uma família, de um mundo.Porque todo jovem precisa ser visto, ouvido e acolhido antes de poder florescer.


Referências

Jefferson, R. et al. (2023). Adolescent loneliness across the world and its relation to school climate, national culture and academic performance. British Journal of Educational Psychology.

Hards, E. et al. (2021). Loneliness and mental health in children and adolescents with pre-existing mental health problems. British Journal of Clinical Psychology.

Burke, L. (2024). Interventions to reduce loneliness in children and adolescents: A systematic review and meta-analysis. European Journal of Public Health.

Lai, B. W. et al. (2023). Improving social isolation and loneliness among adolescents through group-based virtual reality gaming. JMIR Formative Research.

Cena, L. et al. (2023). Loneliness, affective disorders, and suicidal ideation in adolescents during the COVID-19 pandemic. Journal of Child and Adolescent Psychiatric Nursing.


 
 
 

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