“Ele é tão inteligente, mas parece não conseguir acompanhar os colegas.”
- Leo Busollo
- 1 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Quando o brilho da inteligência se mistura à frustração
“Ele é tão inteligente, mas parece não conseguir acompanhar os colegas.”
Essa frase é dita com uma mistura de orgulho e preocupação. É o retrato de muitos pais que enxergam o potencial do filho, mas não entendem por que ele se distrai facilmente, esquece tarefas simples ou se mostra desmotivado com a escola.
A boa notícia é que essa situação tem explicação, e solução, quando olhamos com o cuidado que ela merece.
Inteligência não é sinônimo de desempenho
Ter uma mente curiosa e criativa não garante automaticamente bom rendimento escolar. Pesquisas mostram que até metade dos alunos considerados “superdotados” ou de alta capacidade apresentam algum grau de baixo desempenho escolar (Hoover-Schultz, 2005).
Essa discrepância entre capacidade e realização é chamada de “sub-rendimento” ou underachievement.
Essas crianças podem compreender conteúdos complexos com facilidade, mas têm dificuldade em manter atenção, lidar com frustrações ou seguir rotinas rígidas.
Muitas vezes, o problema não está na capacidade de aprender, mas no modo como o aprendizado é oferecido e em como a criança lida emocionalmente com as exigências do ambiente escolar.
O que realmente está por trás disso?
A ciência aponta diversos fatores que podem explicar esse descompasso entre potencial e desempenho:
Aspectos emocionais e sociais: crianças muito inteligentes podem sentir-se isoladas, incompreendidas ou pressionadas a corresponder a expectativas elevadas. Isso gera ansiedade, perfeccionismo e até desmotivação (Blaas, 2014).
Fatores familiares e escolares: a falta de estímulo adequado ou, ao contrário, o excesso de cobrança pode gerar rejeição ao ambiente escolar (Yusuf & Kasmi, 2022).
Motivação e autoestima: sem desafios significativos ou reconhecimento, o aluno tende a perder o interesse e acreditar que “não é bom o suficiente” (Wu, 2017).
Fatores neurológicos: em alguns casos, há coexistência de altas habilidades com dificuldades específicas de aprendizagem, como dislexia, TDAH ou transtornos de processamento auditivo, o que chamamos de “dupla excepcionalidade” (Desvaux et al., 2023).
Quando a mente vai mais rápido do que o sistema escolar
Em muitos casos que atendo, percebo que o problema não é “falta de esforço”, e sim falta de sintonia. A criança de alta capacidade costuma pensar de forma não linear, questionadora e criativa, enquanto a escola tradicional valoriza a linearidade, a memorização e o conformismo.
Esse descompasso faz com que ela pareça desatenta, “avoada” ou “preguiçosa”. Na verdade, está entediada, ansiosa ou emocionalmente sobrecarregada.
O papel da emoção no aprendizado
A neurociência tem mostrado que emoção e aprendizado são indissociáveis. Uma criança ansiosa, com baixa autoestima ou sem senso de pertencimento tem o cérebro em estado de alerta e, nesse estado, o aprendizado se bloqueia.
Por isso, uma intervenção eficaz precisa integrar o apoio emocional e o pedagógico. Estudos indicam que combinar estratégias educacionais com intervenções psicológicas melhora não só o desempenho acadêmico, mas também o bem-estar emocional desses alunos (Helali & Alwaely, 2025)
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O que eu vejo na prática: mais do que ensinar, é preciso compreender
Ao longo dos meus 11 anos como terapeuta infantojuvenil, vi muitas famílias aliviadas ao perceber que o problema não era “falta de vontade”, mas falta de compreensão.
Crianças inteligentes e sensíveis precisam de um olhar que vá além das notas: precisam ser ensinadas a lidar com a frustração, organizar o pensamento e encontrar propósito no aprender.
O erro mais comum, tanto de pais quanto de profissionais, é tentar “corrigir o comportamento” sem entender o que ele comunica. Em vez de reforçar castigos ou cobranças, o caminho é investigar o que está impedindo aquela criança de expressar todo o potencial que já existe nela.
Estratégias que fazem diferença
Avaliação completa: nem todo baixo desempenho vem de preguiça. Avaliações neuropsicológicas e emocionais ajudam a identificar se há transtornos associados ou dificuldades específicas.
Terapia integrada: o acompanhamento psicológico ajuda a desenvolver autorregulação emocional, foco e autoconfiança, pilares para o aprendizado.
Ambiente estimulante: é fundamental oferecer desafios adequados à capacidade da criança, sem sobrecarga.
Escuta ativa: entender o que a criança sente em relação à escola e ao próprio desempenho pode transformar o modo como ela aprende.
A ciência reforça que fortalecer resiliência e autoconhecimento é uma das formas mais eficazes de prevenir o fracasso escolar em crianças de alta inteligência (Alexopoulou & Batsou, 2019).
Conclusão: inteligência é apenas o ponto de partida
Se o seu filho parece “muito inteligente, mas não acompanha a turma”, não o compare, não o pressione e, principalmente, não o rotule.
Essas crianças não precisam de mais conteúdo, mas de compreensão, acolhimento e propósito.
O verdadeiro aprendizado acontece quando o coração e o intelecto caminham juntos.
Referências
Blaas, S. (2014). The Relationship Between Social-Emotional Difficulties and Underachievement of Gifted Students. Australian Journal of Guidance and Counselling.
Wu, J. (2017). Gifted underachievement: The causes of gifted underachievement, and interventions to reverse this pattern. Undergraduate Research Journal.
Alexopoulou, A., & Batsou, A. (2019). Resilience and Academic Underachievement in Gifted Students. Int. J. Online Biomed. Eng.
Desvaux, T. et al. (2023). From gifted to high potential and twice exceptional. Applied Neuropsychology: Child.
Helali, M., & Alwaely, A. (2025). The Effect of Integrating Educational Strategies and Psychological Interventions in Understanding Learning Difficulties among Gifted Students. Journal of Posthumanism.



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